Design de Superfície Sustentável [Parte 1] – Desconstruindo a Engrenagem

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Após o sucesso do Projeto Ferrugem tanto na disciplina de Fundamentos do Design Gráfico I como ao gerar peças gráficas neste meio, decidi continuar com a ferrugem para a optativa de Estamparia. Com algum know-how ganho pelas experiências anteriores, somado aos estudos para o projeto extensionista Design de Resíduos da Universidade FUMEC, guinei meu semestre na estamparia para uma produção de caráter sustentável. Assim, desenvolvi um projeto de design de superfície que explorava os suportes residuais, como papeis velhos, já impressos e embalagens planificadas. Também assumi que a tinta a ser utilizada deveria não causar impactos ambientais, teria que ser natural. Para isto consultei o Professor Antônio Fernando, doutor pela Universidade Politécnica de Valência, o qual me auxiliou com artigos técnicos e na escolha dos químicos envolvidos.

Tela serigráfica pronta para imprimir os Módulos

A pesquisa começou na bibliografia sobre azulejaria portuguesa no Brasil. Precisava estudar as formas de encaixe de módulos para padronagem, já que iria criar uma forma de design de superfície que pudesse ser aplicada e construída visualmente seguindo o mesmo raciocínio, porém ao invés de cerâmica as peças seriam feitas de um suporte residual. Assim, optei por fragmentar uma imagem de engrenagem em quatro partes, mais uma peça para reta abstraída da mesma forma. Com esse conjunto poderia ser formado qualquer desenho, pensando-o como uma linha, seguindo a teoria da Sintaxe Visual de Donis A. Dondis. O desenho da engrenagem foi feito manualmente com stencil, o qual foi scaneado e vetorizado. A textura e abstração geométrica foi atingida apenas através desse processo manual, de caráter orgânico, o que também simula uma corrosão do material.

Arte final para a tela de Serigrafia

Vale ressaltar que a escolha da engrenagem está alinhada ao conceito do projeto que se trata da ferrugem como um agente metafórico para a deterioração dos aspectos humanos. A idéia do design de superfície é ser aplicado num ambiente e gerar uma proposta de reflexão para o usuário. O público alvo é formado por jovens e adultos, numa faixa de 20 a 30 anos, com interesses em cultura e filosofia e que apresentem questionamentos existencialistas, além de serem praticantes assíduos da leitura.

Impressos dos módulos antes do Corte

A tinta foi feita com uma base mix serigráfica, de qualidade opaca e orgânica, e o pigmento foi extraído de sementes de urucum (Bixa orellana). O urucum foi escolhido pela sua coloração avermelhada e exigiu um processo de umidificação, masseragem e decantação que durou cerca de 3 semanas. Seu insumo foi misturado à base mix e batido até que sua consistência atingisse o nível adequado. Já o suporte escolhido foi o jornal, que além de ser um material de rápida circulação e pequena vida útil tem a característica de conter muitas folhas P&B o que gera um contrastaste ótimo entre o fundo e figura. Além disso o jornal também carrega a carga semântica que contribui na construção da ambiência discutida. Para a impressão, utilizei as aulas na oficina, além de algumas horas extra, para estampar cerca de 200 folhas que posteriormente foram cortadas, revelando as peças unitárias, ou módulos. Agradeço o apoio da monitora Danieli Irene. A produção foi pensada de forma a facilitar a seriação e corte dos módulos, com marcas de corte seccionado na matriz.

Azulejaria Sustentável

Comparação entre as possibilidades de encaixe; O Português e a minha Proposta

Teste de Padronagem

A primeira vantagem de um produto modular é sua versatilidade. Para se montar um painel com azulejos, basta retirá-los da caixa, ter um desenho definido e executar a instalação. Isso é fácil de notar ao ser comparado com a aplicação de um corrido como o plotter, ou talvez um painel pronto, pesado. Para qualquer ambiente  é mais fácil trabalhar com objetos que possam ser montados, pensemos em móveis por exemplo, até seu transporte é facilitado assim.

Tradicionalmente, a aplicação comum dos azulejos é para banheiros e cozinhas, por sua impermeabilidade. Culturalmente, recebemos essa herança dos portugueses, que em um formato artístico foi utilizado na arquitetura de catedrais e edifícios importantes. Já no Brasil das décadas de 50, 60 e 70, houve grande influência do modernismo e assimilamos suas formas geométricas.

Ainda que a utilização de “azulejos de papel” seja restrita à ambientes internos, por conta da resistência do material, é interessante considerar o fator peso e transporte. Sendo uma das chaves da sustentabilidade, será que não deveríamos repensar as tecnologias dos materiais utilizados em design de superfície e ambiente, de forma a reduzir o gasto de combustível nos transportes? É possível desenvolver projetos que reutilizem resíduos e ainda tenham uma vida útil adequada?

Postado em: 25 de fevereiro de 2011
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